PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Um desejo para 2016: Jornalismo


Li há dias um texto dshifte Alexandra Lucas Coelho (jornalista e escritora cujo trabalho muito considero) sobre a mais recente crise no jornal
Público e fiquei com a sensação de que Lucas Coelho ainda não tinha verdadeiramente pensado nos problemas com que se confronta o jornalismo. Não, Alexandra, não creio que o jornalismo do futuro (considerado no seu todo, e não particularizando) venha a financiar-se com publicidade digital, ou através de crowdfunding. A filantropia de fundações endinheiradas poderá dar uma ajuda, mas não será por aí, creio.  É que o problema de fundo (o modelo de negócio, para o qual já há soluções, faço notar, e com interesse do ponto de vista da independência editorial, tema que é tão caro a Lucas Coelho como a mim própria) não vai desaparecer por via da filantropia que porventura venha a assegurar a sobrevivência do jornal Público.

Quando, em 1996, comecei a escrever para a Internet, não imaginava quão longo seria o caminho do jornalismo digital em Portugal. Não imaginava a resistência, a negação, o não-quero-saber, o deixa-andar-que-depois-logo-se-vê. Tarde compreendi a que ponto a comunicação social estava refém das cabeças velhas que queriam continuar a fazer jornais de papel na Rede – transpondo para a web o que era pensado para uma só população e um só território, e existia fisicamente: o papel, as laudas de colunas de texto, os bonecos (para dizerem a fotografia), etc.

Andei anos sozinha a pensar os temas da Revolução digital (o cibermundo, a desmaterialização, o hipertexto, etc, etc.). Bem percebia que essa grande mudança tinha a mesma importância que havia tido a Revolução Industrial, se não mais, mas ninguém ligava nenhuma. Um dia acordei com um programa de rádio na cabeça: Cibéria. Levei-o para a XFM, arranjei um patrocínio do Ministério da Cultura, fui para as escolas conversar com as crianças sobre temas abstractos e por vezes complexos para elas: a modernidade e o progresso, por exemplo.

As crianças não se importavam e conversavam comigo, inventando conceitos difusos. Diziam, por exemplo, que a modernidade era ser muito moderno, era ter um carro moderno e vestir roupas modernas (novas e muito à frente), e que o progresso era ser muito rico e ter muita tecnologia. Nas palavras das crianças emergia dolorosamente a cultura materialista do País: o dinheirinho. Apenas ele era respeitável, relevante, apenas ele era motor: motor de vidas, objectivo de existências. Ser digital(*) não interessava nada. Já ter tecnologia era outra história.

Para fazer esse programa, mais tarde transferido para a TSF, convidei os primeiros portugueses que se interessavam pelos temas um bocado esdrúxulos que então me ocupavam o espírito. Organizei vários painéis de conversa em directo. José Mariano Gago também passou pelo velho estúdio da TSF no vale de Alcântara. Recordo ainda hoje a noite em que apareceu por lá para ser um dos mais interessantes entrevistados que tive a sorte de ter em antena. Levei também outros que não queriam saber: músicos, escritores, artistas de várias artes. Parecia-me que poderiam ser bons interlocutores. Raramente o foram. Não queriam saber.

Como queria continuar a ser jornalista, acabei por regressar ao papel. Entre 2004 e 2010 fui exclusivamente jornalista de imprensa. Freelancer com colaborações em várias revistas de fim-de-semana (as semanais dos jornais). Jornalismo de texto longo, reportagens de fundo, grandes entrevistas, com fotojornalismo e não imagens encenadas e com luz produzida. Jornalismo, não comunicação. Quase esqueci a era digital. Mergulhei no anacronismo analógico português e no jornalismo puro e duro. Trabalhei os chamados grandes temas de sociedade. Queria perceber o que havia debaixo do tapete português. Percebi.

Portugal era (é) um país com demasiados problemas por resolver. Como fazer a transição para o digital num país assim? Assim subdesenvolvido e assim de poderes capturados por velhas cabeças (por vezes de gente nova) feitas pessoas numa cultura que prossegue reproduzindo as piores práticas do Estado Novo? Pessoas que têm na cabeça um país imortal – lugar imaginado que se aguenta à Globalização, incólume como uma velha barata aqui chegada num contentor do Império.

Pondero agora todos esses anos (vinte, desde 1996) e pergunto: o que andaram a fazer as administrações dos órgãos de comunicação social? E os jornalistas? Terão achado que a era analógica tinha maneira de sobreviver à massificação do digital e à cultura de sociedade (uma civilização mundial) que gerou? Terão pensado que a Globalização não ia mudar o jornalismo?

Resta a certeza de estar quase tudo por fazer. Um grande jornal online de Língua portuguesa sobre o Mundo todo (e não apenas sobre Portugal e os mundos da lusofonia). Jornalismo, não opinião. Jornalismo, não agregadores de notícias. Jornalismo, não activismo. Jornalismo, não propaganda. Jornalismo, não entretenimento (por vezes chamado conteúdos). Nem jornalismo para elites, mas para toda a gente que pensa e que sonha em Português. Sobre todas as sociedades do Mundo. Jornalismo. Em Português.

(*) Referência ao livro Being digital (1995), de Nicholas Negroponte

[vários outros textos sobre Jornalismo aqui]

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

3 comments on “Um desejo para 2016: Jornalismo

  1. Pingback: Um desejo para 2016: Jornalismo | Um redondo vocábulo

  2. Carlos Fonseca
    31 de Dezembro de 2015

    O que escreves está em sintonia com o que temos falado – e eu, de jornalismo, sou mero consumidor. Li também o artigo da Alexandra. Compreendo-a quanto às razões e queixas do declínio dos jornais. Todavia, e valha-lhe uma pureza próxima da ingenuidade, também entendo que a estratégia que sugere está carregada de utopia. Tu és realista. Ela é uma sonhadora, opinião esta que não é de todo pejorativa. Ainda não se deu conta do mundo em que vivemos.

    Liked by 1 person

    • Sarah Adamopoulos
      31 de Dezembro de 2015

      Nesse texto, a Alexandra tenta uma estratégia para o Público, mas o problema de fundo julgo que ainda não tinha realmente pensado nele. As soluções que enumera sugerem-no.

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This entry was posted on 30 de Dezembro de 2015 by in Jornalismo, Sociedade and tagged , , , , , , , , .

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