PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Prosa triste do Natal parvo (ou ao contrário)

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(c) Martin Parr (na sala de uma família portuguesa nos subúrbios de Perth, na Austrália)

O tempo do Natal é outro. É interior, oculto, paralelo, ali a inchar até não haver mais espaço. Passa de mansinho, as famílias em bicos-de-pés, cheias de sacos de tudo, enchapeladas e enluvadas, a subirem convergentes a ladeira aos encontrões, como se fugissem da guerra e o abrigo fosse alguma manjedoura. Chegam lá acima, estendem a toalha aos quadradinhos vermelhos e brancos, e comem até não haver mais espaço. Depois trocam presentes ao luar, até não haver mais presentes, ou o que dizer sobre eles. Depois recordam histórias, ou então esgrimem-nas, até não haver mais espaço, ou os floretes estarem todos partidos. Quando não há mais nada para dizer, o anjo do silêncio já não passa: fica. Calam-se todos, até não haver mais espaço para tudo que não foi dito e por vezes jamais será, e despedem-se até para o ano. Tudo retoma então uma certa normalidade, reabrem-se clareiras de tempo normal, mas aflige-me a visão de pessoas funâmbulas que procuram o equilíbrio momentaneamente perdido, ali a caminhar em fios de nylon finíssimo, algumas caem, é terrível, chegam atrasadas e todas partidas aos empregos. Só depois dos reis é que o ar fica de novo mais respirável. Sobretudo para os republicanos. Observo e verifico que assim é, o que me parece sobejamente científico. Olho muito bem e é isso que vejo.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 30 de Dezembro de 2015 by in Maré, Sociedade and tagged , , .

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