PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Natal e Ano Novo

Natal_Ano NovoNatal

Jamais senti o Natal como dia de alegria. Sofro de certa indiferença, desde que me recordo dos meus pensamentos infantis. As condições adversas da minha infância, julgo, excluíram-me do espírito efusivo da data. O percurso da vida, marcado por transformações de condições económicas e familiares melhoradas, moderou, entretanto, esse desapego.

É data rotineira, cheia de rituais. Serve para reunir à mesa mais uns membros da família, cumprir a tradição do bacalhau com batatas e couve portuguesa e, no final, assistir ao entusiamo das crianças a desfazer os embrulhos coloridos, revelando maior preferência por esta prenda em vez daquela. O ritual final cumpre-se no dia seguinte (25/12) e aí confesso-me já saturado.

Do Natal dos ‘centros comerciais’ a abarrotar, das compras para familiares e amigos, há muito tempo que me afastei. Ao invés, medito naqueles que, esquecidos todo o ano, têm finalmente um dia para se sentirem felizes. Sem tomarem consciência, são a matéria-prima do assistencialismo. As TV’s são infatigáveis a despejar notícias de iniciativas de ‘bodo aos pobres’ de Norte a Sul. Uns recebem sacos de alimentos, outros juntam-se para uma refeição de dezenas de desvalidos a devorar coisa diferente do que lhes mitiga a fome no resto do ano. Vivam onde vivam, esses convivas da desgraça: sob tectos e entre paredes esconsas ou, na rua, envoltos em trapos e caixas de cartão canelado.

Este género de Natal, e cada vez temos mais deste e não de outro melhor, é, de facto, uma grande jornada de misericórdia e piedade para determinada camada social que adora mostrar-se benemérita às custas do alheio. Há, portanto, sempre almas repletas de aparente clemência. Impacientes à medida que a data se avizinha, esperam o Natal para aconchegarem os estômagos de pobres com ou sem abrigo, de corpo gástrico e bulbo duodenal pregueados pela fome.

Conclui-se que, para essa benevolente gente à custa das dádivas alheias, o Natal e os dias que o precedem equivalem a uma jornada semelhante ao peditório do ‘Banco Alimentar’, cada vez mais apropriado num País que gasta milhares de milhões, de volta e meia, no programa ‘Alimentar Banco’. Curioso! Uma simples inversão de palavras transforma a piedade em expropriação draconiana de milhões e mais milhões aos contribuintes.

Fim-do-Ano

Gosto de festas, claro! Todavia, recuso-me a submeter ao calendário do ‘itinerário consumista’. Umas vezes, talvez na maioria dos casos, por falta de meios; outras, porque não estou disposto a cumprir esse tipo de calendário sacramental do consumo – o dia de Ano Novo, o dia do Namorados (existem casados há 40 ou mais anos que o comemoram), o dia do Pai, o dia da Mãe, o ‘dia das bruxas’ importado dos ‘States’, mais o dia disto e daquilo e o já amplamente abordado dia de Natal.

Relativamente ao ‘Fim-do-Ano’, ‘Réveillon’ ou aquilo que lhe quiserem chamar, lembro-me sempre de um monólogo do Jô Soares, a que assisti no CCB em Janeiro/Fevereiro de 2005. O Jô, que é o humorista de língua portuguesa que mais aprecio, preenchia o espectáculo a contar histórias. Normalmente, em tom suave, causou gargalhada e aplausos durante todo o espectáculo. A certa altura, narrou a seguinte história:

– Minha mulher estava doente. De cama. Pela primeira vez na vida, tive de ir sozinho fazer compras ao supermercado. Foi mesmo duro encontrar a maioria dos artigos. Porém, o problema maior foi quando chegou a vez de comprar o feijão preto em lata. Tirei uma, duas, três… enfim uma quantidade de latas da prateleira e vi que, em todas, o prazo de validade terminava naquele mesmo dia. Amolado, peguei numa das latas e perguntei lá para o empregado: Olha aí, você me explica o que se passa dentro da ‘puta’ desta lata à meia-noite para que o feijão não possa ser comido depois dessa hora?

Plagio a interrogação: o que se passará na meia-noite de 31 de Dezembro para que a nossa vida, e sempre com expectativa de muitas felicidades, mude a partir de 1 de Janeiro? De ano para ano, há sempre mudanças, sabe-se. Nos últimos, tem sido sempre para pior. Todavia, não é o tempo de calendário que causa e mede as mudanças. É a sociedade em que vivemos, que tem piorado nas desigualdades, nas obrigações sociais do Estado, no desemprego, na pobreza e em outros domínios que interferem na vida das pessoas.

Ressalvo, contudo, que, apesar de não acreditar em datas mágicas, um ‘Bom Réveillon’ é evento que aprecio e muito. Então, se for no Rio de Janeiro ou mesmo em S. Salvador da Baía, venha de lá essa música bem batidinha para todo o mundo sambar. Entre uns ‘chopes bem frios’ (cerveja a copo, imperial) e umas caipirinhas, se necessário, vamos até Maracangalha (Dorival Caymmi).

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This entry was posted on 29 de Dezembro de 2015 by in Sociedade and tagged , , , , , , , , .

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