PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Entre a Eslovénia e a Espanha, o passado e o futuro, a Europa vacila

Kai Littmann . Eurojournalist

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Em Espanha, vai doravante ser difícil fazer política sem a «nova esquerda» do Podemos. Foto: Gmmr3 / Wikimedia Commons / CC-BY-SA 4.0

(KL) – A Europa está a ficar cada vez mais polarizada. Enquanto países como a Grécia, Portugal e agora Espanha reinventam uma «esquerda europeia», outros países – e na primeira linha a Hungria, a Polónia e agora também a Eslovénia – brincam ao «regresso ao passado». Qual das tendências se afirmará?

No passado fim-de-semana dois escrutínios estiveram no foco da atenção de Bruxelas. Primeiro, as eleições legislativas em Espanha, que se saldaram pelo começo de uma nova era parlamentar em Espanha. Por outro lado, o referendo na Eslovénia, que se saldou pela proibição do casamento homossexual e do direito de adopção pelos casais do mesmo sexo. Enquanto os primeiros caminham para um futuro inovador, os segundos enredam-se em atitudes conservadoras dignas do século XIX.

Em Espanha, haverá doravante quatro partidos no parlamento. Se por um lado os conservadores do PP de Mariano Rajoy permanecem os mais votados, por outro perderam quase 17% dos votos, totalizando não mais que 28,71%. Rajoy vai sem dúvida tentar formar um novo governo, mas precisará de um parceiro de coligação, o que poderá ser difícil. Pois os outros três partidos representados na nova composição parlamentar de Madrid têm pouco em comum com Rajoy, e este último será obrigado a fazer concessões, acaso queira efectivamente encontrar um parceiro e desse modo manter-se no poder.

Os socialistas do PSOE alcançaram 22,02% dos votos, enquanto que o movimento da nova esquerda, o Podemos, obteve um resultado bastante surpreendente: 20,65%. O partido cidadão Ciudadanos alcançou 13,93% dos votos e apresenta-se como o mais provável parceiro dos conservadores.

A taxa de participação nas eleições espanholas foi impressionante: 73,2% dos espanhóis deslocaram-se às urnas, o que demonstra um verdadeiro interesse pela política. A chegada de novos partidos a um sistema bipolar direita/esquerda parece estar a fazer bem à democracia.

Para Mariano Rajoy, as coisas não serão fáceis. Uma «grande coligação» entre conservadores e sociais-democratas, à imagem da «grande coligação» levada a cabo na Alemanha, parece estar fora de hipótese. Não há qualquer química entre Rajoy e o chefe do PSOE, Pedro Sanchez. Por outro lado, a união dos liberais do movimento de cidadãos Ciudadanos e os conservadores não parece fácil, uma vez que o chefe dos «cidadãos», Alberto Rivera, havia já declarado durante a campanha eleitoral que não queria Rajoy na liderança de um novo governo.

Já o Podemos, nem vale a pena falar nisso: Pablo Iglesias representa a total oposição à concepção da política que anima os conservadores em Espanha, o que dificultará a vida a Rajoy. Qualquer que seja o seu futuro parceiro, Rajoy terá de fazer enormes concessões, coisa em que não tem treino nenhum. A menos que os outros três partidos encontrem um terreno de entendimento capaz de pôr Rajoy fora de jogo…

Por estes dias, a Europa polariza-se e parece cada vez mais claro que as crises que se têm reproduzido e eternizado nos últimos anos deixaram marcas profundas. Será interessante acompanhar a situação, tentando perceber qual das tendências se afirmará: se uma «nova política de esquerda» ou se o «ultra-nacionalismo de feição cristã». Ora, a segunda hipótese já a Europa a conhece, tendo-a vivido inúmeras vezes, e, a cada novo ensejo, a coisa acabou em catástrofe. Talvez fosse mais sensato dar uma chance a quem quer adaptar a política às realidades do século XXI?

 

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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