PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

As mulheres do presidente

 

1963.05.23 M. Morujo, Gertrudes e Américo Tomás

 

Tal como a velhinha do anúncio, eu ainda sou do tempo do presidente-navegador. Lembro-me dele perfeitamente, na escola primária, mesmo por cima do quadro, lado a lado com o senhor presidente do conselho e um crucifixo meio enferrujado.

Da patroa lembro-me menos, mas a minha mãe lembra-se por mim. À senhora dona Gertrudes admiravam-se a distinta falta de beleza, a discrição do penteado, das peles, das jóias e do sorriso pronto, que notoriamente contrastava com a falta dos pré-molares ao insigne esposo.

Na altura, como agora, a mulher do presidente era um assunto de estado. Ou melhor, de Estado Novo. Bem vistas as coisas, Américo Thomaz não era presidente da República. Não há República sem Democracia. Digamos que, para encurtar razões, era o presidente do Estado Novo nomeado pelo senhor presidente do conselho.

António Spínola e Costa Gomes também não eram presidentes da República. Ninguém votou neles. Nem sequer o MFA. Escolheram-nos por serem os únicos generais séniores que dava para fazer de conta que não eram amigos do peito da outra senhora. Em todo o caso, eram apenas presidentes da Junta de Salvação Nacional. Enfim, como o tempo não era apropriado a eventos sociais e as revistas se preocupavam mais com cravos que com modas, as respectivas puderam passar praticamente despercebidas.

Finalmente houve eleições presidenciais como deve ser. Ganhou o então general-graduado Ramalho Eanes. Havia quem dissesse que a senhora dona Manuela tinha particular influência no palácio de Belém. Vá lá saber-se. Diz-se o mesmo de todos os políticos. Heterossexuais, quero eu dizer. Uma coisa é certa, conseguiu recriar o cânone capilar feminino com o seu imponente penteado anos 70.

A senhora dona Maria Barroso penteava-se de forma menos volumétrica, mas, em contrapartida, era tudo menos a tradicional dona-de-casa do ancien régime. Tinha tido uma vida como actriz, era tão fundadora do PS como Mário Soares e, apesar de mais tarde lhe ter dado para a beatice, dizem-me que declamava muito bem os poetas do reviralho.

Muito se falou dos penteados da senhora dona Maria José Ritta, mulher de Jorge Sampaio. Tirando isso, devemos-lhe o bom gosto de passar discretamente pelo cargo de primeira-dama. E ainda mais, depois disso.

Finalmente, chegou Cavaco Silva e a sua Maria. Tal como o marido, nunca se sentiu muito à vontade no exercícico do cargo, apesar de sempre o acompanhar para todo o lado, fosse na inauguração de um quartel de bombeiros nas berças, fosse numa arriscada excursão às Ilhas Adjacentes em busca de encontros mediáticos com as sorridentes vacas leiteiras. Se nunca ninguém a viu a mastigar de boca aberta, também é verdade que ainda hoje não sabe o que fazer às mãos. Em contrapartida, tornaram-se célebres as suas prestações cénicas como árvore de Natal. E, com a proliferação de revistas da especialidade, os seus penteados tornaram-se um verdadeiro must.

Não admira que nos perguntemos, hoje, que penteado usará a mulher do próximo presidente. Isto se a Marisa Matias e a Maria de Belém não ganharem, pois aí temos que pensar fora da caixa, como agora se diz. Ora, os penteados dos cavalheiros costumam ser muito enfadonhos. Tirando os guitarristas de rock e os jogadores de futebol, os homens usam, por junto, três penteados: todo para trás, risca ao lado, careca assumida. Há ainda o penteado sanefa-betinho-de-Cascais e o rabo-de-cavalo-de-esquerda à Podemos. Excepto o último, nenhum dos outros garantiria assunto para mais que um número de revista-sala-de-espera.

Vejamos então os candidatos e o que têm para nos oferecer. O candidato do PCP em tempos foi padre. Não faço ideia se abjurou o celibato quando se despadrou, mas, tendo em conta que não ganha nem que Jesus seja campeão europeu, não vale a pena perder muito tempo com ele.

Henrique Neto é casado pela segunda vez, mas nem na Wikipédia encontrei nomes. Paulo Morais, idem. Sampaio da Nóvoa já deixou claro que as mulheres não são para aqui chamadas. Enfim, são casados. Se ganharem, têm patroa para apresentar e logo se verá. Ao contrário de Marcelo Rebelo de Sousa, que é divorciado de direito, mas ainda casado de facto com a senhora dona Ana da Motta Veiga. Nos intervalos diz-se que namora com Rita Cabral. Mas parece que nunca casaram porque ele se diz ainda casado aos olhos de Deus.

Se ganhar as presidenciais, como todas as sondagens teimam em indicar, qual delas será a primeira-dama? A legítima? A outra? Receio que tenhamos um sério problema de protocolo a resolver. Mesmo que não seja um problema de estado, será seguramente um problema de cabeleireiro. No fim de contas, são essas pequenas coisas que fazem um mandato presidencial.

 

Créditos: foto, M. Morujo, 23.05.1963

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This entry was posted on 20 de Dezembro de 2015 by in Sociedade and tagged , .

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