PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Uma coisa para ser

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Verão de 1988. Acabei de voltar a Portugal, vinda da minha juventude, das viagens, dos estudos literários mal-amanhados (Conrad, sobretudo ele, fez com que tudo tivesse valido a pena), da diletância a que me havia dedicado com *displicência* – a minha palavra favorita da altura, o exercício preferido dessa minha juventude, na arrogância magnífica dos que arremessam displicentemente esse desinteresse que os liberta de toda a gravidade da existência. Acto voluntário, gesto consciente da sua irrelevância, inacabado pelo princípio de sê-lo, toda a displicência era para mim uma obra de arte e um statement. Chego de novo a Portugal assim.

Volto para ajudar a construir o novo país da União Europeia, volto para participar nisso, toda europeísta e empenhada na construção do país em que escolho viver – decisão que nada tinha de displicente, na grande ironia de ter sido assim. Volto por amor, por ter escolhido, de entre outras possíveis, essa raiz, a árvore a que então escolhi pertencer. Apesar de todas as advertências, volto. Tudo estava por fazer, e a simples ponderação dessa vastidão de possibilidades provocava em mim um desejo imenso de ser parte de alguma construção. Pois se estava tudo por fazer.

Chego assim, para assistir ao grande incêndio do Chiado, o coração de Lisboa ali a ser reduzido a cinzas à minha frente, labaredas como dragões a devorar o Chiado num ápice, o João e eu a bebermos vinho branco gelado e a assistir àquilo. Morria ali, no incêndio do Chiado, uma ideia de país, a modernidade de Garrett insuficientemente moderna, ou, quem sabe, displicentemente moderna. Vejo clarões com os rostos de Pessoa, Almada e Amadeo a emergirem das chamas como génios enfiados em bules árabes que o fogo houvesse esfregado para que saíssem.

Lisboa recomeçava ali, agora é que ia ser, e eu estava lá, com os meus poemas definitivos do Sá-Carneiro, herói superlativo da minha utopia juvenil, a que juntava, não sem contradição, as Folhas Caídas (porém nem todas) do Garrett sensualista a fazer poemas com o desejo por objectos impossíveis de obter, eu já toda clássica e vulnerável a um bom soneto capazmente escrito. Coabitavam então em mim a modernidade eterna de Almada e a de Petrarca – bem como de todos os que haviam escolhido a inultrapassável e muito paradoxal modernidade dos cânones da Antiguidade. Chego assim, cheia de poetas na cabeça. Bebo vinho branco gelado com o João, o Chiado arde.

Apesar de estar tudo por fazer em Portugal e de eu ser evidentemente necessária (disso me convenci e ninguém foi capaz de me dissuadir, raios), passo vários meses sem trabalho. Até que o Luís me diz que estão à procura de uma pessoa para dar apoio à redacção da revista de O Independente – fazer secretariado, traduzir do Francês artigos comprados à imprensa internacional (ao Libération, por exemplo, modelo gráfico d’O Indy original, transposto pelo sopro talentoso do Jorge Colombo num jornal português como não havia nem houve ainda mais nenhum outro), escrever pequenas notícias.

Vou à entrevista com o Miguel Esteves Cardoso. Gosto dele, é maluco e inteligente. Sou seleccionada, entro na redacção do Indy a todo o gás, para traduzir da noite para o dia um longo texto obituário sobre o Imperador Hirohito. Arranjei um emprego num jornal, hipótese jamais verdadeiramente aflorada no meu espírito desejoso de ajudar a construir Portugal. Imaginava-me a trabalhar num ambiente internacional, a falar várias línguas, sobretudo o meu Francês, e afinal vou parar a uma redacção de um jornal.

A parte boa era ser um jornal totalmente novo, a começar. Talvez fazê-lo pudesse ser parecido com fazer um país de novo, pensava eu na minha ingenuidade. As pessoas desse jornal tinham a minha idade, algumas eram meias-estrangeiras como eu e, também como eu, sonhavam noutras línguas. Talvez pudéssemos, todos juntos e a pensar noutras línguas e a ser de outras culturas, ajudar a construir Portugal. Parecia fácil: na redacção vivia-se um ambiente de permanente construção. Todas as semanas era preciso inventar um novo jornal.

Gosto daquilo. Na verdade, apaixono-me por aquilo, o sortilégio atinge-me, o bichinho entra em mim e instala-se, sem displicência. No jornalismo há a escrita. Foi por aí, pela tecedura das palavras, que o bichinho entrou. Francófila, descubro-me de repente também lusófila, e essa nova condição encanta-me. Está certo que o liceu em Portugal y était pour quelque chose, claro, mais aquele professor de Língua portuguesa que me tinha mostrado a Literatura, tocando nessa parte sensível e despertando-a para uma longa insónia.

No jornal traduzo o meu segundo artigo, ainda mais longo que o primeiro, sobre o nascimento da Fotografia: um assunto importantíssimo naquele lugar mental complexo que era a redacção d’O Independente – onde a Fotografia portuguesa renasceu, se é que não nasceu ali mesmo, no final dos anos 1980 do século XX, tardiamente para algo então antigo de 150 anos, e a que até à data ninguém em Portugal ligava grande coisa, para não dizer mesmo nada. Nos outros jornais batiam-se chapas, faziam-se bonecos. Ali fotografava-se a sério. Para que precisava eu de continuar na faculdade se podia estar num jornal como aquele?

Traduzo, organizo um serviço de apoio aos jornalistas da revista, tenho uma agenda com o número de telefone do Paul Newman. Tentam perpetuar em mim uma secretária de redacção, manter-me nisso, mas não é possível: a pulsão da escrita e uma curiosidade quase absurda por tudo o que há no Mundo propulsam-me para o jornalismo como para um destino. Detesto fado, então. Mais tarde aprendo a gostar, para depois entrar num desgosto (talvez definitivo) disso. Sou a ruptura, apesar dos mistérios metafísicos que transporto nas células portuguesas: uns fadistas repentistas, por exemplo, ali em mim a contradizer com insuportável improviso o meu espírito judeu germanófilo todo metódico.

N’O Independente o assunto é só um: Portugal. Caio nesse caldeirão e de repente o País parece realmente muito grande e uma fonte inesgotável de felicidades e descobertas. Sou, assim, durante um ano, uma secretária que traduz e que escreve (sobre livros, sobretudo). Encomendam-me textos, sugiro outros, e ganho enfim direito a uma carteira profissional. Descubro uma coisa. Uma coisa para fazer, mas sobretudo para ser.

Na imagem, o número zero de O Independente (Rui Henriques Coimbra, fotografado por Inês Gonçalves, à entrada do jornal com uma resma densa de jornais debaixo do braço)
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

2 comments on “Uma coisa para ser

  1. Madalena
    11 de Janeiro de 2016

    que belo texto, Sara! *

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    • Sarah Adamopoulos
      11 de Janeiro de 2016

      obrigada, Madalena

      Gostar

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This entry was posted on 19 de Dezembro de 2015 by in Maré and tagged , , , , , .

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