PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Nós, a metamorfose

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Rui Chafes, 2006 | Não separes o sim do não (ferro)

Estou constantemente a tropeçar em textos (ou vídeos) cujo objectivo é fazer valer um estranho ponto de vista: o que questiona veementemente a incoerência (no longo tempo) do discurso de figuras da vida política portuguesa. Se é indiscutível que há pessoas que se põem mais a jeito que outras, pela ostensiva capacidade que denotam para se contradizerem – por vezes de forma polarizada, em total oposição a princípios anteriormente defendidos -, o facto não torna mais válido o estranho processo de intenções. A ver se consigo explicar-me. Tem a ver com a própria percepção de quem somos.

A acusação (de falta de coerência, por vezes com vários exemplos de contradições ‘apanhadas’ em diferentes períodos) repousa desde logo num sofisma: o de que seríamos a mesma pessoa ao longo da vida, pensando as mesmas ideias e agindo sempre de igual forma – independentemente da marcha do tempo, isto é, do que acontece nessa passagem. A percepção acompanha, aliás, a representação que comummente procuramos fazer dessa única pessoa que seríamos, firme e inabalável no seu modo de ser e de olhar para as coisas. E também no seu modo de aparecer perante os outros.

De facto, a maioria das pessoas pensa-se a si mesma como um ser impermeável à própria vida (à passagem das horas e à vivência da aventura humana que é existir, e existir com os outros). Um ser cujo corpo seria, aliás, feito da mesma matéria do ferro e das pedras, e logo extremamente resistente (coerente, permanente). Não há muito tempo, os nossos corpos eram assim considerados, reflectindo a concepção de uma certa imortalidade que, só mais recentemente, começou a ser questionada no espaço público em que se inscreve o pensamento sobre quem somos (nós, os bichos humanos).

O endeusamento do homem autor da era da técnica foi longe demais. E a ilustrá-lo está, regra-geral, o facto de as pessoas associarem à auto-percepção uma imagem de si mesmas registada num momento já distante das suas vidas adultas. Com vinte e cinco anos, por exemplo. Quando têm quarenta, continuam a representar-se com vinte e cinco. Quando têm cinquenta, também. Depois, há por vezes um momento em que finalmente fazem uma actualização dessa imagem. Mas a nova auto-representação mimetiza, na maior parte dos casos, uma pessoa já antiga, alguém que foram há vinte ou trinta anos, exibindo-se então uma versão decadente dessa pessoa jovem que existiu há muito tempo.

Isto é um problema, porque remete as pessoas para um juventismo totalmente absurdo e gerador de grande disforia, i.e., mal-estar. E circunscreve-as a uma auto-imagem que deixa de fora o resto da vida, isto é, tudo o que aconteceu depois de essa imagem se ter apropriado da sua identidade.

Não. Não somos sempre os mesmos ou em tudo coerentes, não porque sejamos más-pessoas, de má-índole e sem virtude (ou só seguidistas e marias-vão-com-as-outras), mas porque nos transformamos noutras pessoas. Somos a metamorfose, e não seres estáticos. E somos isso independentemente da identidade que transportamos por legado familiar, social e cultural (que é também, quanto a ela, uma constante mutação).

Penso que mais interessante do que nos inscrevermos numa única imagem que muito depressa deixa de nos corresponder, é pensarmo-nos como o fruto de uma sempiterna transformação. E que é por isso que por vezes somos incoerentes relativamente a sistemas de valores, crenças e ideais a que aderimos no passado. É porque mudamos, é porque reconsideramos, é porque aprendemos, e nos reposicionamos. É porque somos já outros.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 18 de Dezembro de 2015 by in Sociedade and tagged , , , , , , , .

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