PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

O professor de esquerda

 

novoa_mediaAntónio Sampaio da Nóvoa terá chegado cedo à corrida das presidenciais. Mas esse timing justificou-se pela falta de mediatização que o reitor honorário da Universidade de Lisboa tem na sociedade portuguesa. Como dar-se a conhecer, e a uma ideia diferente do que pode ser um próximo presidente da República, num curto espaço de tempo e durante um período previsivelmente dominado pelas Legislativas?

Apesar de relativamente pouco conhecido da generalidade do povo eleitor, Sampaio da Nóvoa conseguiu congregar muita gente em torno da sua candidatura. Ela representa uma continuidade – interrompida pelo duplo consulado de Cavaco Silva – que se inscreve nos legados de António Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio. Mas representa também uma ruptura, pela natureza independente que exibe relativamente aos partidos políticos. Atendendo ao estado de credibilidade daqueles entre o povo, a circunstância deverá beneficiar Nóvoa.

Apenas Marcelo Rebelo de Sousa lhe faz verdadeiramente sombra, pelo capital de popularidade acumulado por esse outro professor.  

Nóvoa integrou, nas Autárquicas de 1976, uma das primeiras listas de cidadãos independentes. Chamava-se TMUPA [Trabalhadores Moradores Unidos para as Autarquias], uma espécie de plataforma participativa cidadã criada na Parede para a eleição da assembleia da freguesia. O cariz cidadão da candidatura de Nóvoa será, sem dúvida, a sua marca mais distintiva. Nóvoa, ao contrário dos seus adversários mais directos, é um cidadão que se apresenta partidariamente descomprometido.

Apesar disso, sabemos bem que a sua candidatura é de esquerda, por mais que Nóvoa tente ocultá-lo (ou desvalorizá-lo) no seu discurso de pré-campanha. Uma parte desse alinhamento ideológico repousa, aliás, na valorização de princípio conferida à Educação. Estranho seria que fosse doutro modo, tratando-se de um professor com tão significativo currículo académico na área de conhecimento da Educação.

Nóvoa tem uma formação em Ciências da Educação, uma tese de doutoramento sobre a História dos professores em Portugal, um segundo doutoramento (pela Sorbonne) em História Moderna e Contemporânea e experiência enquanto consultor para a Educação: do Presidente da República Jorge Sampaio e da UNESCO junto do governo brasileiro. No site oficial da sua candidatura pode ler-se: «António Sampaio da Nóvoa acredita que a Educação é o motor da liberdade.»

Em matéria de Educação, o caminho percorrido por Portugal demonstra a que ponto os portugueses têm sido (desde há longo, longo tempo, apesar da mais recente democratização do acesso à Educação) privados dessa máquina de desenvolver as sociedades. Uma máquina que, de facto, se verdadeiramente funciona no longo prazo, favorece a liberdade, pelas oportunidades de mobilidade social (mas também cultural, pois nem tudo se resolve pelo acréscimo de capacidade económica) que em si mesmas representam indiscutíveis ganhos de liberdade para os cidadãos.

Assim a Educação, que é um direito constitucional, seja um efectivo dever do Estado, e não o activo público demitido dessa função que tem sido, com a crescente empresarialização das escolas e as políticas que, pesem embora os discursos da sua propaganda, têm na prática negado aos mais pobres esse direito passível de lhes oferecer liberdade na vida. Políticas geradoras de níveis de desigualdade de que teremos notícias mais cedo que tarde.

Resta saber que acção pode ter um presidente da república nessa matéria, que depende, como se sabe, e antes de mais, do debate e da actividade parlamentares. Ou seja, de legislação, idealmente passível de favorecer o investimento do Estado português em matéria de políticas para a Educação. Assunto importantíssimo, de que depende grandemente o desenvolvimento da sociedade.

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About Sarah Adamopoulos

Escritora, tradutora e jornalista profissional. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Publicou vários livros, entre os quais "Fado menor" (ficção, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

2 comments on “O professor de esquerda

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This entry was posted on 14 de Dezembro de 2015 by in Educação, Política nacional and tagged , .

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