PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Le Pen e a globalização

Marine Le Pen perdeu as eleições mas ganhou esperança. E ganhou, também, raiva. Vê-la, ouvi-la, é ver essa raiva a bruxulear à nossa frente, na fogueirinha (nem tanto assim pequena) em que ardem os piores e mais destrutivos sentimentos. Visivelmente excessiva, Le Pen cresce em fúria e permite-se todos os disparates discursivos. Como, por exemplo, fazer da globalização um combate electivo do nacionalismo francês. Como se essa fosse, assim considerada (a França contra o Mundo), uma guerra sequer imaginável, por mais que se questione o fenómeno que mudou o Mundo e/ou que se tenha procurado combatê-lo.

A menos que a Internet e o complexo sistema de redes nela sustentado fossem destruídos, e uma guerra de dimensão mundial nos levasse para um outro cenário, a globalização é irreversível: um estádio de desenvolvimentle_pen_marine_jean_marie_o (económico, mas não só) da Humanidade. Pode-se melhorá-lo – e seria desejável, pois a desigualdade cresce nele como erva daninha – mas é inquestionável que a interdependência dos mercados é hoje total.

Marine Le Pen representada num filme de uma associação internacional anti-racista e anti-semita francesa. O filme deu origem a um processo de Le Pen contra o Estado francês (que financia a referida organização em França)

Basta ver a que ponto o que se passa em Espanha afecta Portugal, por exemplo na distribuição farmacêutica. É só um exemplo doméstico, há muitos outros. Em França, apesar das diferenças (uma economia maior, mais forte, com outra implantação no Mundo) é a mesma coisa. Le Pen não percebe isso? Como pode um dirigente político abalançar-se hoje a governar um povo se não percebe o mundo em que está?

Irónico é pensar que França poderia ter liderado o desenvolvimento e a distribuição da Internet na Europa. Mas a falta de visão prospectiva do país que criou o Minitel no final dos anos 1970 e o distribuiu pelos lares franceses (em substituição das velhas listas telefónicas) no início dos anos 1980, fez a França perder essa corrida. Ouvir agora Marine Le Pen a discursar contra a marcha da globalização (como se ela estivesse no início, ou fosse um fenómeno circunscrito apenas a uma parte do Globo) é por isso um pouco como ouvir alguém a dizer que é mitterrand_sur_minitel_1981preciso voltar ao Minitel.

Le Pen é, sem dúvida, uma mente analógica. Uma aparição de uma outra mente. E sobretudo de um outro tempo.

A 10 de Maio de 1981, o rosto do novo Presidente da República revelou-se aos franceses através do Minitel
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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 14 de Dezembro de 2015 by in Política internacional, Tecnologia and tagged , , , , , .

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