PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Porrada por encomenda, não

comunidade OUT
(*)

Um dia convidaram Luiz Pacheco para dar porrada por encomenda num jornal. Pacheco, por mais que precisasse do dinheiro – e precisava mesmo – era um homem sério, e não aceitou a tarefa expressa que vinha com o convite. Muitos questionarão a sua seriedade, claro. E referirão as muitas histórias que correm sobre Pacheco. Mas fá-lo-ão, sobretudo, porque respeitam, acima de todas as coisas, o dinheiro e as suas emanações poderosas – coisa que Pacheco não tinha.

Luiz Pacheco tinha outras coisas bastante mais respeitáveis. A começar por “uma exigência própria” – isto é, “um gosto em ver-[se] a si próprio e aos outros da maneira certa”. Claro que a maneira certa contém em si grande subjectividade. Mas tratando-se do autor de Comunidade, obra-prima de verdade literária ímpar – que muito diz, aliás, sobre o que é existir como escritor na miséria endémica, que é também moral e intelectual, de Portugal -, esse olhar não é um qualquer.

Era com essa lente de ver as coisas de perto, de vê-las como elas verdadeiramente são e de o dizer – posição difícil e de grande solidão – que Pacheco via e dizia. Foi a ver assim e a ser livre, indisponível para se auto-ludibriar, e por mais falta que lhe fizesse o dinheiro, que Luiz Pacheco não se prestou ao papel que lhe estendiam e atiçavam. “Quando comecei a publicar, alguém anunciou: o escritor e polemista Luiz Pacheco. Queriam que eu fosse para o jornal dar porrada. E eu, só para chatear, para contrariar, estive quase um ano a retrair as unhas. Porrada por encomenda, não.”

(*) Exemplar da 1º edição (1970) à venda na Frenesi

Citações escolhidas de uma longa entrevista que lhe fiz em 2004 (capa da revista Pública)

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

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This entry was posted on 13 de Dezembro de 2015 by in Cultura and tagged , , , , .

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