PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

As aldeias históricas e o interior envelhecido e despovoado

Cavaco Silva, é nítido, está a sofrer a dor da partida. O passado passou e dos tempos idos resta o que se memorizou.

O Presidente da República é dotado de personalidade complexa. O silêncio, umas ocasiões, e a especulação, outras, constituem dois traços comportamentais habituais. Jamais desperdiça a oportunidade de se auto-classificar de sábio, caso da paradigmática frase “nunca me engano e raramente tenho dúvidas.”

Também poderia afirmar de si próprio que jamais engana os outros. De facto, é-lhe impossível iludir quem quer que seja, devido ao género adoptado de desempenho de funções de Estado. Seja como PM, seja como PR. As sondagens hoje divulgadas pelo ‘Expresso’ comprovam a péssima imagem de Cavaco junto dos portugueses. Em fim do segundo mandato, atribuem-lhe uma popularidade de -9,9%.

Com o propósito de desvalorizar os resultados, é comum afirmar-se “as sondagens valem o que valem”. Com efeito, o valor em causa poderá ser menor e de limitado significado. Todavia, algum fundamento haverá para que todos os PR’s anteriores não tenham tido, ao longo dos mandatos, uma popularidade sequer negativa em sondagens.

Nos passeios presidenciais que lhe restam, hoje deambulou por terras beirãs. Esteve em Alcains, Beira Baixa, e em Almeida, Beira Alta. Enalteceu o projecto das 12 aldeias históricas (Marialva, Linhares da Beira, Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Velha, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso). Irresistível ao auto-elogio, lembrou que em Junho de 1994 tinha visitado seis delas. A mensagem foi fazer crer “este projecto também é obra minha.”

Sem tirar mérito à iniciativa de estruturas locais e o reconhecimento de que as aldeias antes mencionadas constituem, de facto, património histórico valioso, tem infelizmente de inferir-se que, por culpa de Cavaco e de outros políticos, o interior do País está a léguas das condições urbanísticas e demográficas das referidas aldeias.

A imagem dominante e autêntica do Portugal profundo é composta por terras e terras despovoadas ou de reduzido povoamento por idosos, na maioria dos casos em sofrido fim-de-vida. Basta fazer uma viagem, bem pelo interior. Partir de Alcaria da Serra (Vidigueira) e galgar estradas e terras até, por exemplo, S. Martinho de Anta (Trás-os-Montes e terra de Miguel Torga), passando por Sernancelhe (Beira Alta e terra de Aquilino Ribeiro). Um olhar atento, deparar-se-á, de quilómetro em quilómetro, com casas e campos abandonados, gente idosa (quando existe gente), aldeias e vilas onde quase não há crianças. Também rareiam as unidades de prestação de cuidados de saúde, escolas e outras infra-estruturas elementares.

A desqualificação de vilas e patrimónios históricos igualmente contribuiu para a degradação do interior. Citamos a desactivação de ramais ferroviários e a venda das Pousadas de Portugal ao grupo Pestana. Uma réplica dos ‘paradores espanhóis’, as pousadas portuguesas, nas mãos da “insuperável iniciativa privada”, exauriram o papel de preservação de patrimónios históricos e de promoção de gastronomia regional. Ao invés, do outro lado da fronteira, a propriedade e gestão está sob a responsabilidade da sociedade estatal Paradores de Turismo de España SA.

Temos, em resumo, um País de enorme subdesenvolvimento económico e social, que uma dúzia de aldeias históricas jamais consegue disfarçar, quanto mais ocultar.

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