PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

A tensão mata

 “Prefiro quem trabalha com tesão do que com tensão. Mas a cultura da tensão se instaurou.” [Washington Olivetto]

Quando comecei a trabalhar na publicidade, no início de 1990, a indústria estava em pleno crescimento. Portugal entrara na CEE, os fundos comunitários chegavam aos milhões, a economia abria-se ao exterior e o mercado de consumo explodia. Muito naturalmente, a publicidade também, pois foi para fazer explodir o consumo que a publicidade foi inventada.

Nessa época, desde que não falhassem os prazos, ninguém se importava muito se os criativos entravam, regularmente, depois das onze. Até porque também ninguém saía antes da hora do jantar. Num dia assim-assim, aí por volta da meia-noite. E, num dia mesmo mau, não nos podíamos esquecer de comprar café, tabaco e Kit-kats para virar a noite. 

Como era um trabalho particularmente bem pago, também ninguém se atrevia a falar em horas extras. Pagas, quero eu dizer. Mesmo ao Sábado ou Domingo, se tivesse que ser — era mesmo. Parafraseando os velhos mafiosos, não me podia queixar, foi a vida que eu escolhi. E escolhi-a porque, precisamente, me dava muita tesão (*).

Em cada trabalho que me punham em cima da mesa, fosse filme, anúncio de dupla página ou folheto promocional, a tesão era sempre a mesma. Era muito bem capaz de estar a beber um copo no Bairro e, completamente relaxado, ocorrer-me finalmente o título que me faltava para o anúncio. Pegava no bloquinho e na Futura, apontava-o rapidamente e, muito satisfeito por já poder chegar tarde no dia seguinte, mandava vir mais um vodka com gelo.

Um dia, a economia começou a encolher. Muito antes da imprensa, a publicidade é sempre a primeira a sentir os ciclos negativos. Os budgets baixam, as margens diminuem, os accionistas começam a ficar nervosos. Ora, num negócio fundado em recursos humanos, baixar as despesas equivale a baixar os salários, aumentar proporcionalmente o número de horas, deixar no ar a possibilidade do downsizing, multiplicar na agência os estagiários não remunerados, em suma, aumentar a tensão. E, é mesmo uma banalidade de psicologia da prateleira do fundo, quanto mais tensão menos tesão. A criatividade torna-se mais bem comportadinha, cada vez mais insonsa, cada vez mais bullshit. A tecnologia substitui o conteúdo, o preço sobrepõe-se à marca e ao produto, a ideia é ultrapassada pela idiotice, o sorriso é abafado por um riso muito mais alarve.

É bem verdade, diz Washington Olivetto, que “o politicamente correcto matou a criatividade”. Mas a tensão não se limita a matar a tesão, a criatividade ou o até mesmo o sorriso. A tensão, pura e simplesmente, mata.

(*) Os dicionários estabelecem que tesão é um substantivo masculino. Na verdade, nunca conheci ninguém que não lhe trocasse o sexo.

Créditos: Washington Olivetto, in Folha de São Paulo, 17.09.2014 || LITANY, Grand Prix Cannes 1999; cliente, The Independent; agência, Lowe.

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This entry was posted on 11 de Dezembro de 2015 by in Voyeur and tagged , .

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