PATRÍCULA ELEMENTAR

«A nossa pequena pátria, a nossa patrícula.» B. Vian

Atropelamento e fuga

Maria de Belém anunciou o seu desejo de ser candidata à Presidência da República atropelando a pré-campanha eleitoral para as Legislativas, num momento especialmente difícil para o Partido Socialista, minado por facções divergentes e oposições internas à liderança de António Costa. No dia do lançamento oficial da candidatura de Belém a Belém, Ana Sá Lopes, num óptimo resumo do (ainda actual) estado do PS, escrevia: «O meio mundo socialista que hoje se acotovelará no Centro Cultural de Belém às seis da tarde não esteve no dia 29 de Abril no lançamento da candidatura presidencial de Sampaio da Nóvoa. Onde estiveram Mário Soares, Jobelem2016rge Sampaio e João Cravinho, estarão agora Manuel Alegre, Jorge Coelho e Vera Jardim; onde esteve a Associação 25 de Abril estará agora a União das Misericórdias (…)» 

Maria de Belém tinha um trunfo não-negligenciável: o facto de ser uma mulher, a que se acrescentava alguma capacidade de captar votos ao centro e à direita – o que naturalmente não sucederá com Marisa Matias, cuja candidatura, ainda assim, retirou valor ao trunfo sexista passível de beneficiar Belém. Uma vantagem que repousa na ainda deficiente representatividade das mulheres no exercício do poder político. Muitas mulheres votariam (e algumas votarão, sem dúvida) em Maria de Belém apenas por ser mulher – o que, diga-se, é fraca razão acaso a candidata não tenha as qualidades (humanas, também) que se requerem, e o cargo a que se abalança – o do mais alto magistrado da nação – deveria exigir.

Sucedeu que esse que era à partida um trunfo foi grandemente reduzido a cinzas pela deslealdade que constituiu a inqualificável ultrapassagem pela direita de Maria de Belém à candidatura de Sampaio da Nóvoa – à qual o PS havia anteriormente anunciado o seu apoio. Não há como contorná-lo: Maria de Belém, que já foi Presidente do PS, recorde-se, agiu com evidente deslealdade partidária, o que, ainda por cima, de modo algum se coaduna com uma candidatura cujo primeiro lema de propaganda assenta no valor do carácter da candidata: «Belém, a força do carácter».

Costuma dizer-se (costumam dizer os cínicos, conformados, quando não comprometidos, com a devassidão dos valores) que “em política vale tudo”. Mas não vale. Mais: os sucessos de quem não olha a meios não torna a preposição válida, muito pelo contrário: torna-a pornográfica. Porque contribui para o lamentável descrédito da actividade politica. Uma desconfiança espelhada na enorme taxa de abstenção, cujo recorde foi alcançado em 2011, quando Cavaco Silva foi reeleito num escrutínio que não contou com o voto de mais de 5 milhões de eleitores inscritos.

A candidatura de Maria de Belém tem, assim, o óbice de representar uma velha ordem em avançado estado de decadência. Uma ordem integrada por senhores e senhoras cujo modo de estar na vida pública, na política, e, sobretudo, no poder, deixa muito a desejar. Senhores e senhoras que são herdeiros dos sistemas e subsistemas de poder do antigo regime, e cuja sobrevivência (por vezes eternização na vida pública, como é o caso em apreço) depende dessas redes de influência.

Por todas estas razões, e ao contrário do que se afirma na página oficial da sua candidatura, Maria de Belém não parece realmente ser uma mulher que faz a diferença.

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About Sarah Adamopoulos

Antiga jornalista profissional, dedica-se à edição de livros - criação e produção editorial - desde 2008. Anda pelos blogues desde 2003, lugares de eleição para a escrita rápida e para o debate de sociedade. Autora de vários livros, entre os quais "Fado menor" (literatura, 2005) e "Voltar – memória do colonialismo e da descolonização" (investigação historiográfica, 2012). Traduziu, entre outros, o primeiro grande estudo económico sobre a desigualdade no Mundo publicado no século XXI ("O capital no século XXI", de Thomas Piketty). Tem sempre peças de teatro e poemas na cabeça.

2 comments on “Atropelamento e fuga

  1. Pingback: Sobre o discurso ao congresso de António Costa enquanto como excedentes alemães (*) | PATRÍCULA ELEMENTAR

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This entry was posted on 8 de Dezembro de 2015 by in Política nacional and tagged , , .

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